A vitimização dá votos?

José Sócrates, na minha opinião, parece ter tratado com demasiada “ligeireza” alguns assuntos que exigiriam mais cuidado e precaução. Terá sido assim, por exemplo, nas conhecidas histórias do curso de engenharia, dos projectos de construção e do caso Freeport. Por isso, considero que José Sócrates é, em primeiro lugar, vítima de si próprio, do seu voluntarismo: quem tem elevadas ambições políticas não deve ignorar que, mais tarde ou mais cedo, todos os seus actos e comportamentos serão esmiuçadamente analisados.
Quanto às questões judiciais, à eventual participação em casos que estão a ser investigados, há que aguardar o seu completo esclarecimento.
É perfeitamente normal e legítimo que qualquer cidadão fique indignado quando é injustamente acusado e recorra à Justiça para defender o seu nome e a legalidade dos seus actos. Todavia, já não é nada normal a excessiva dramatização deste facto e a tentativa de transformar a investigação numa cabala, numa campanha negra, desencadeada por poderes ocultos, como se a carta rogatória da polícia inglesa, na qual é alegadamente mencionado o nome de José Sócrates, pudesse fazer parte de alguma conspiração ou a polícia inglesa, por perseguição pessoal ou qualquer outra razão oculta politicamente influenciada, resolvesse de ânimo leve incluir o nome do primeiro-ministro português numa investigação.
E ainda é mais estranha a campanha desencadeada pelo governo, pelo PS e pelos seus simpatizantes: os e-mails para os militantes, a afirmação de que se tenta pôr a democracia refém de campanhas negras, a ridícula comparação com o caso Dreyfus, a acusação de que trata de um linchamento público com interesses partidários ou as polémicas afirmações de que José Sócrates deveria “confrontar as instituições envolvidas com as suas responsabilidades, designadamente a PGR e o Presidente da República, utilizando em última instância o recurso para o voto dos eleitores“.
Na verdade, há limites para tudo e o que se tem lido e ouvido, para além de demonstrar incompreensível desespero e falta de confiança na capacidade da investigação para total esclarecimento da verdade, mais parece uma campanha branqueadora da real situação do país e das responsabilidades deste governo à medida que se aproxima o fim do mandato.
A vitimização cheira muito a estratégia eleitoral!









